FIND-CKD: a finerenona inaugura uma nova era no tratamento da doença renal crônica sem diabetes?
O estudo FIND-CKD mostrou que a finerenona reduz a velocidade de progressão da doença renal crônica sem diabetes. Veja os principais resultados.
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Entenda como o FIND-CKD amplia o papel da finerenona na DRC sem diabetes e o que isso significa para a prática clínica.
A doença renal crônica (DRC) atravessa um momento de profunda transformação. Depois de décadas em que o bloqueio do sistema renina-angiotensina era praticamente a única estratégia capaz de retardar a progressão da doença, novas terapias ampliaram significativamente as possibilidades de nefroproteção. Os inibidores do SGLT2 consolidaram esse movimento e, nos últimos anos, a finerenona passou a ocupar papel de destaque na proteção cardiorrenal de pacientes com diabetes tipo 2.
Entretanto, permanecia uma pergunta importante: os benefícios da finerenona dependem da presença do diabetes ou podem ser estendidos a outras formas de doença renal crônica?
Essa foi justamente a hipótese investigada pelo FIND-CKD, o estudo mais aguardado do Congresso da European Renal Association (ERA) 2026 e publicado simultaneamente no New England Journal of Medicine. Pela primeira vez, um grande ensaio clínico avaliou exclusivamente pacientes com DRC sem diabetes, oferecendo respostas que podem ampliar o papel da finerenona na nefrologia moderna.
Neste artigo, revisamos os principais resultados do FIND-CKD, discutimos suas limitações e analisamos como esses achados podem influenciar o tratamento da doença renal crônica.
Assista também à análise do Nefropapers gravada diretamente do ERA 2026.
O que é o FIND-CKD e por que esse estudo é importante?
Mesmo com o uso otimizado de IECA ou BRA e, mais recentemente, dos inibidores do SGLT2, sabemos que há espaço para diminuir a perda progressiva da função renal na DRC. Esse risco residual motivou a busca por novas estratégias terapêuticas capazes de atuar em mecanismos diferentes da hiperfiltração glomerular.
Nesse contexto, o receptor mineralocorticoide tornou-se um alvo de grande interesse. Sua ativação crônica está associada à inflamação, ao estresse oxidativo e à fibrose, processos que contribuem para a progressão da DRC e para o aumento do risco cardiovascular. Embora antagonistas esteroidais, como a espironolactona, já apresentassem benefícios conhecidos na perspectiva cardiovascular, sua utilização em pacientes com doença renal sempre foi limitada principalmente pelo risco de hipercalemia.
A finerenona surgiu como o primeiro antagonista não esteroidal do receptor mineralocorticoide aprovado para proteção cardiorrenal. Os estudos realizados em pacientes com diabetes tipo 2 mostraram benefícios consistentes, mas permanecia a dúvida se esse efeito dependia da nefropatia diabética ou refletia um mecanismo fisiopatológico comum a diferentes etiologias da DRC. O FIND-CKD foi desenhado exatamente para responder essa questão.
Finerenona na doença renal crônica: o que sabíamos antes do FIND-CKD?
Antes do FIND-CKD, toda a evidência clínica robusta envolvendo a finerenona vinha dos estudos FIDELIO-DKD e FIGARO-DKD, ambos conduzidos em pacientes com diabetes tipo 2 e doença renal crônica.
Esses estudos demonstraram redução da progressão da doença renal e dos eventos cardiovasculares, consolidando a finerenona como uma das principais terapias modificadoras da história natural da nefropatia diabética. Como consequência, diretrizes internacionais, incluindo o KDIGO 2024, passaram a recomendar seu uso em pacientes com diabetes tipo 2, albuminúria persistente e tratamento otimizado com bloqueio do sistema renina-angiotensina.
Entretanto, ainda não existiam estudos de fase 3 avaliando pacientes sem diabetes. Na prática, isso limitava a utilização da finerenona em glomerulopatias, nefroesclerose hipertensiva e outras formas de DRC proteinúrica, apesar de compartilharem mecanismos fisiopatológicos semelhantes.
Como foi o desenho do estudo FIND-CKD?
O FIND-CKD foi um ensaio clínico multicêntrico, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo que incluiu 1.584 pacientes com doença renal crônica sem diabetes. Todos os participantes estavam em uso otimizado de IECA ou BRA e foram acompanhados por uma mediana de 36,6 meses.
Quais pacientes foram incluídos?
Foram elegíveis pacientes com TFGe entre 25 e 90 mL/min/1,73 m², albuminúria significativa e potássio sérico ≤4,8 mEq/L. Foram excluídos indivíduos com diabetes, doença renal policística autossômica dominante, nefrite lúpica, vasculite associada ao ANCA e uso recente de imunossupressores.
A população estudada apresentava idade média de 55 anos, predominância masculina e alta prevalência de hipertensão arterial. Mais da metade dos participantes tinha glomerulopatias como etiologia da DRC, enquanto cerca de um terço apresentava nefropatia hipertensiva ou isquêmica. Apenas 17% utilizavam inibidores do SGLT2, reflexo da época em que o estudo foi iniciado.
Quais foram os desfechos avaliados?
O principal diferencial metodológico do FIND-CKD foi a escolha da inclinação da curva da taxa de filtração glomerular estimada (eGFR slope) como desfecho primário.
Em vez de aguardar a ocorrência de eventos renais tardios, como diálise ou transplante, esse marcador permite avaliar a velocidade de perda da função renal ao longo do tempo, tornando os estudos mais sensíveis para detectar benefícios precoces das terapias nefroprotetoras.
Principais características do FIND-CKD
Desenho | Ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo |
Participantes | 1.584 pacientes |
População | DRC sem diabetes |
Seguimento | 36,6 meses |
Intervenção | Finerenona versus placebo |
Desfecho primário | Inclinação da curva da TFGe (eGFR slope) |
Quais foram os principais resultados do FIND-CKD?
O FIND-CKD atingiu seu desfecho primário e demonstrou que a finerenona retardou significativamente a perda da função renal em pacientes com doença renal crônica sem diabetes. Mais do que confirmar a eficácia da medicação em uma nova população, o estudo reforçou a hipótese de que o bloqueio do receptor mineralocorticoide atua em mecanismos compartilhados por diferentes formas de DRC, independentemente da presença de diabetes.
A finerenona reduziu a progressão da doença renal
Ao longo de 32 meses, a perda anual da taxa de filtração glomerular foi aproximadamente 0,7 mL/min/1,73 m² menor no grupo tratado com finerenona. Embora essa diferença possa parecer discreta, trata-se de uma magnitude semelhante à observada com outras terapias que hoje representam pilares da nefroproteção.
Mais importante do que o valor absoluto é compreender seu impacto ao longo do tempo. Em uma doença de evolução lenta, pequenas diferenças anuais podem representar atraso significativo na progressão para estágios finais da DRC.
Como interpretar a queda inicial da TFGe?
Um dos pontos que mais chamou atenção durante a apresentação do FIND-CKD foi a redução inicial da taxa de filtração glomerular observada nos pacientes tratados com finerenona. À primeira vista, esse comportamento poderia sugerir piora da função renal. No entanto, a interpretação correta é justamente o oposto.
Assim como ocorre após o início de um IECA, de um BRA ou de um inibidor do SGLT2, a finerenona promove uma redução da pressão intraglomerular. Esse efeito hemodinâmico resulta em uma pequena queda inicial da TFGe, seguida por uma desaceleração da perda de função renal ao longo do tempo. Ao final do acompanhamento, os pacientes tratados apresentavam uma trajetória de declínio mais lenta quando comparados ao grupo placebo.
Outro dado reforça essa interpretação. Após a suspensão da medicação ao término do estudo, observou-se recuperação rápida da TFGe no grupo que utilizava finerenona, sugerindo que boa parte desse declínio inicial era funcional e reversível, e não consequência de dano estrutural ao rim.
Esse comportamento já é familiar ao nefrologista e não deve ser interpretado, isoladamente, como falha terapêutica. Pelo contrário, representa um efeito esperado das principais terapias nefroprotetoras atualmente disponíveis.
Os desfechos secundários confirmam o benefício?
Embora o estudo tenha sido desenhado utilizando o eGFR slope como desfecho primário, os resultados secundários reforçaram a consistência do benefício observado.
A redução da albuminúria foi um dos achados mais expressivos. Após seis meses de tratamento, os pacientes que receberam finerenona apresentaram redução de aproximadamente 41% da albuminúria em relação ao grupo placebo, diferença que permaneceu durante o seguimento. Além disso, houve redução do risco do desfecho composto envolvendo queda sustentada da TFGe ou progressão para insuficiência renal.
Os desfechos cardiovasculares seguiram a mesma tendência, embora o número relativamente pequeno de eventos impeça conclusões definitivas para cada componente analisado isoladamente. Ainda assim, o conjunto dos resultados reforça o conceito de proteção cardiorrenal previamente demonstrado nos estudos realizados em pacientes com diabetes.
Principais resultados do FIND-CKD
Desfecho primário | Menor declínio anual da TFGe com finerenona |
Albuminúria | Redução de aproximadamente 41% em 6 meses |
Queda sustentada ≥40% da TFGe ou insuficiência renal | Redução significativa |
Desfecho renal e cardiovascular composto | Benefício favorável à finerenona |
A finerenona é segura na doença renal crônica sem diabetes?
Como esperado para um antagonista do receptor mineralocorticoide, a hipercalemia foi o evento adverso mais frequente entre os pacientes tratados com finerenona. Entretanto, o perfil de segurança observado foi semelhante ao já conhecido pelos estudos FIDELIO-DKD e FIGARO-DKD.
Embora a incidência de hipercalemia tenha sido maior que no grupo placebo, a maioria dos episódios foi leve, poucos pacientes precisaram interromper definitivamente o tratamento e hospitalizações relacionadas ao aumento do potássio foram raras. Além disso, não houve aumento da incidência de injúria renal aguda nem de outros eventos adversos graves.
Esses resultados reforçam que o principal desafio da finerenona continua sendo o monitoramento adequado do potássio sérico. Na prática, a estratégia é semelhante à adotada para outras terapias que interferem no sistema renina-angiotensina: monitorização laboratorial periódica e manejo precoce da hipercalemia quando necessário.
Principais eventos adversos | Finerenona | Placebo |
Hipercalemia | 17,0% | 13,3% |
Injúria renal aguda | 2,9% | 3,2% |
Suspensão por hipercalemia | 1,5% | 0,1% |
Eventos adversos graves | Sem diferença relevante | — |
O estudo INFINITY confirma os resultados do FIND-CKD?
Além do FIND-CKD, o congresso também trouxe a publicação do INFINITY, análise integrada que reuniu dados individuais dos estudos FIDELIO-DKD, FIGARO-DKD e FIND-CKD, totalizando mais de 14.600 pacientes com doença renal crônica. O objetivo foi avaliar se os benefícios da finerenona permaneciam consistentes em diferentes etiologias da DRC, níveis de albuminúria e estágios de função renal.
Os resultados mostraram redução consistente dos desfechos renais e cardiovasculares em praticamente todos os subgrupos avaliados, sem evidência de heterogeneidade relevante. Embora análises integradas não substituam ensaios clínicos randomizados, o INFINITY fortalece a hipótese de que o bloqueio do receptor mineralocorticoide representa uma estratégia de proteção cardiorrenal aplicável a um espectro muito mais amplo de pacientes.
Quais são as limitações do FIND-CKD?
Como todo ensaio clínico, o FIND-CKD apresenta limitações que devem ser consideradas antes da extrapolação de seus resultados.
A principal delas é o baixo uso de inibidores do SGLT2 entre os participantes. Apenas 17% dos pacientes utilizavam essa classe terapêutica, percentual muito inferior ao observado atualmente na prática clínica. Dessa forma, ainda permanecem dúvidas sobre a magnitude do benefício da finerenona quando utilizada em associação ao tratamento considerado padrão nos dias de hoje.
Além disso, pacientes com doença renal policística autossômica dominante, nefrite lúpica e vasculites associadas ao ANCA foram excluídos do estudo, limitando a aplicação direta dos resultados para essas populações específicas.
O que o FIND-CKD muda na prática clínica?
Os resultados do FIND-CKD representam uma expansão importante da evidência científica disponível para a finerenona. Pela primeira vez, um grande estudo demonstra benefício consistente em pacientes com doença renal crônica proteinúrica sem diabetes, ampliando o conceito de proteção cardiorrenal para além da nefropatia diabética.
Como a finerenona se posiciona ao lado dos iSGLT2?
Mais do que competir com os inibidores do SGLT2, a finerenona atua em mecanismos fisiopatológicos complementares. Enquanto os iSGLT2 reduzem a hiperfiltração glomerular e produzem efeitos metabólicos favoráveis, a finerenona exerce ação anti-inflamatória e antifibrótica por meio do bloqueio do receptor mineralocorticoide. A tendência é que essas estratégias sejam utilizadas de forma complementar na redução do risco residual da DRC.
Para quais pacientes os resultados podem ser aplicados?
Os achados do FIND-CKD são particularmente relevantes para pacientes com doença renal crônica proteinúrica sem diabetes, especialmente aqueles com glomerulopatias ou nefropatia hipertensiva, em uso otimizado de IECA ou BRA. Entretanto, ainda será necessário aguardar atualizações das diretrizes e das agências regulatórias antes que essa indicação seja incorporada à prática de forma ampla.
O que esperar daqui para frente?
O FIND-CKD representa um passo importante na evolução da nefroproteção. Ao demonstrar benefício da finerenona em pacientes com doença renal crônica sem diabetes, o estudo amplia o papel dos antagonistas não esteroidais do receptor mineralocorticoide e reforça que diferentes etiologias da DRC compartilham mecanismos comuns de progressão.
Ainda será necessário acompanhar a atualização das diretrizes, a incorporação regulatória dessa nova indicação e os estudos que avaliarão a combinação da finerenona com outras terapias nefroprotetoras. No entanto, os resultados apresentados no ERA 2026 colocam a finerenona entre as intervenções com maior potencial para modificar o tratamento da DRC nos próximos anos.
Referências
Heerspink HJL, Agarwal R, Bakris GL, et al. Finerenone in Persons with Chronic Kidney Disease Without Diabetes. New England Journal of Medicine. 2026;395:431-443. doi:10.1056/NEJMoa2608635.
Neuen BL, Heerspink HJL, Perkovic V, et al. Efficacy and safety of finerenone in chronic kidney disease: an individual participant data pooled analysis of the FIDELIO-DKD, FIGARO-DKD and FIND-CKD trials (INFINITY). The Lancet. 2026.
Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO). KDIGO 2024 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of Chronic Kidney Disease. Kidney International. 2024;105(Suppl 4S):S1-S150.